Qual o propósito da sua vida? (pausa para pensar…)
De verdade, pare um minuto para pensar nisso. Por que você está aqui? Quando você estiver com 80 anos de idade e olhar para trás, o que você quer ter feito que vá te dar a sensação de uma vida bem vivida? De paz, de orgulho, de serenidade, de satisfação?
Eu não sei com que freqüência as pessoas pensam nisso. Às vezes tenho a impressão que uma grande quantidade de pessoas passa pela vida sem jamais fazer este tipo de questionamento. Vivem um dia atrás do outro, moldando suas vidas em expectativas e padrões sociais, inseridas num contexto altamente influenciado pela mídia, pelo consumismo e pelas circunstâncias a que estão acostumados.
Sempre que eu tenho oportunidade faço esta pergunta às pessoas. Tenho uma enorme curiosidade em ouvir as respostas. Nem sempre as pessoas têm respostas claras, a maioria precisa parar pra pensar. Algumas, inclusive, me olham e dizem: “Como assim??” E, na verdade, mesmo para aquelas pessoas que já pararam pra pensar nisso, esta resposta não é fácil de ser encontrada.
Para começar a responder esta pergunta, é importante saber que a primeira definição está em como você encara a pergunta. Dependendo do seu sistema de crenças, basicamente você pode enxergar esta questão de 3 formas:
- Todos já nascemos com um propósito definido e precisamos descobrí-lo.
- Não há propósito definido e cabe a cada um de nós definir qual é o nosso propósito.
- Não há propósito definido e não precisamos encontrar um para nossa vida. Basta viver um dia atrás do outro.
Qualquer uma destas crenças é uma escolha. Mesmo que você tenha sido criado para acreditar em algo específico, você sempre tem a opção de escolher em que quer acreditar.
Como crenças são muito pessoais, eu não vou defender nenhuma das alternativas. Escolha a que se encaixa melhor a você. Mas, evidentemente, vou falar da alternativa que conheço melhor.
A minha experiência pessoal me mostrou que viver com um propósito é muito melhor do que viver sem um. Como o meu sistema de crenças já passou por muitas transformações, eu já olhei para esta pergunta das 3 formas e já vivi também as 3 perspectivas. E escolhi (sim, conscientemente escolhi) acreditar que, embora eu não possa negar totalmente a possibilidade de haver um propósito pré-programado para cada indivíduo, esta alternativa não é suficiente para mim e eu tenho livre arbítrio para definir um propósito na minha vida. Então, hoje estou no grupo de pessoas que acredita na segunda opção, sem desconsiderar completamente a primeira, optando por exercer controle sobre esta escolha enquanto minha experiência pessoal não encontrar nenhuma evidência de que eu deva mudar de opinião.
O grupo de pessoas que acredita na primeira opção, vai tender a buscar em suas experiências pessoais dicas que apontem o caminho. O trabalho neste caso está em buscar experiências e manter-se atento, mas é uma postura mais passiva, pois o trabalho é de descoberta e não de definição.
Já as pessoas que acreditam na segunda opção, tendem a ter uma postura mais pró-ativa, já que o processo é de definição e não de descoberta.
Em geral, pessoas no grupo das que acreditam na terceira opção são atéias, mas ainda assim, ateus podem escolher dar um propósito para suas vidas, ainda que seja para tirar melhor proveito da sua estadia no nosso planetinha azul.
Escolher um propósito é uma tarefa intimamente ligada ao reconhecimento dos nossos valores. Sem isso, não dá pra se definir um propósito conscientemente. Cada pessoa tem uma escala de valores. Para algumas, a família é o mais importante. Para outras, o dinheiro, o sucesso profissional. Para outras, reconhecimento ou contribuição, independentes ou não de retorno financeiro. Indo um pouco mais a fundo, valores estão em palavras como liberdade, aceitção, ambição, coragem, equilíbrio, paz, desafio, desenvolvimento, paixão, diversidade, fidelidade, amor, independência, companheirismo, amizade, integridade, honra, conhecimento, privacidade, controle, altruísmo, simplicidade, verdade e assim por diante.
Na nossa sociedade somos condicionados a colocar lá no topo (ou no minimo perto do topo) da nossa escala de valores o sucesso financeiro, freqüentemente associado a reconhecimento profissional. Olhe em volta. Quantas pessoas você conhece que não vivem suas vidas tendo este como um de seus principais valores? Se elas próprias não estão buscando isso, valorizam isso de alguma forma nas pessoas à sua volta. E assim, a grande maioria das pessoas passa a vida trabalhando em busca de algo que foi condicionado a valorizar - e sobra bem pouco tempo para questionarmos se é isso mesmo que queremos, não é? Já está se sentindo um ratinho de laboratório ou um fantoche dentro deste cenário? É pra se sentir mesmo! Você é parte da máquina capitalista e ela está definindo seu propósito por você, porque é altamente conveniente.
Não estou dizendo que as pessoas não devam trabalhar, não me entendam mal! Estou simplesmente dizendo que você não deve se deixar cegar pelos valores que nos são impostos, senão, aos 80 anos, você vai olhar pra trás e reconhecer, quando for tarde demais, que não fez muitas escolhas na vida - embora parecesse que estava fazendo. Você pode ter escolhido empregos, que carreira seguir, onde foi morar, etc. Mas todas estas escolhas estão contidas dentro de uma bolha de expectativas. É como o ratinho de laboratório no labirinto, achando que está fazendo escolhas ao virar à direita ou à esquerda, quando a liberdade de escolha, de fato, está em perceber que não é preciso ficar no labirinto. Que há outras coisas lá fora que você não está enxergando enquanto está ocupado demais seguindo o cheiro do queijo. Parar para pensar no seu propósito significa sair deste labirinto, ou desta bolha se preferir, e perceber que você pode criar sua própria realidade, contendo suas escolhas reais, com base no que é importante para você e nos seus valores. Isso se resume em uma palavra: liberdade.
Então, se eu já te dei pelo menos um bom motivo para definir seu propósito, independentemente do seu sistema de crenças, voltemos aos valores:
O que é importante pra você?
…..
PARE! Volte… Não o que te ensinaram que é importante… O que é importante pra você? Se você conseguir responder honestamente que é trabalhar a vida toda para atingir sucesso profissional, ou você foi muito bem condicionado ou então o “labirinto capitalista” é de fato o lugar certo para você. Mas ainda assim, ao menos se dê ao trabalho de sair dele e olhá-lo de fora, para poder dizer a si mesmo que está ali por opção e não por condicionamento. Tem uma grande diferença.
Por que é importante entender muito bem quais são nossos valores?
Porque são eles que vão guiar a definição do propósito. E a definição do propósito irá guiar suas escolhas. Vou dar um exemplo: outro dia fiz esta pergunta para uma pessoa que me respondeu que seu principal valor era paz, que para ela não havia nada de mais importante na vida. Em outras palavras, o que esta pessoa quer é viver em paz - não ficar rica, nem ter uma casa na praia, etc. Ela sabe que parte desta paz vem de estabilidade financeira, mas a estabilidade financeira não é a sua meta de vida, é um meio. Se ela encontrar outros meios de viver em paz, a estabilidade financeira deixa de ser importante. Então, uma pessoa com este valor, quando encarar uma situação de escolha na vida, se estiver consciente daquilo que realmente quer, vai sempre tender a escolher a opção que a coloca mais perto da paz, que é seu objetivo primário. Possivelmente, pessoas com valores diferentes vão olhar para esta escolha e torcer o nariz. Mas, no fim do dia, esta pessoa vai deitar a cabeça no travesseiro, coincidentemente em paz com sua escolha. E no fim, não é só isso que importa? Não é você sozinho que carrega seus dias, suas escolhas e sua história? Esta pessoa que mencionei não tem um propósito ainda. Na verdade, nem sei se quer ter. Mas já tem sua escala de valores bem definida, o que já é meio caminho andado.
Uma vez definida sua escala de valores (que é um profundo processo de auto-conhecimento), chega a hora de entender como traduzir estes valores em um propósito. O propósito é uma afirmação clara do que você quer realmente fazer com o resto da sua estadia por aqui. Esta definição tem um potencial enorme para guiá-lo em todas as suas escolhas, dar a você a sensação de liberdade como ser humano e a oportunidade de viver uma vida da qual você vai se orgulhar aos 80 anos de idade. Mais ainda, ter um propósito claro, poupa tempo que é uma das poucas coisas sobre as quais não temos nenhum controle na vida - e que uma vez perdido, não pode ser recuperado. Entender ou definir exatamente o que estamos fazendo aqui e o que queremos desta experiência chamada vida, nos ajuda a rejeitar escolhas que não estão alinhadas com nosso propósito, evitando que percamos tempo valioso fazendo coisas que não nos acrescentam nada. Isso tudo, independentemente de você acreditar que pra lá da ponte tem um céu, um inferno ou um purgatório, que há outras vidas a serem vividas ou que não tem ponte nenhuma e seu único destino é virar pó. A alternativa - viver um amontoado de dias, meses e anos correndo por um labirinto como um ratinho de laboratório - é muito menos atraente, não?
O propósito deve ser algo amplo o suficiente que possa ser aplicado a situações diferentes, idades difrentes, escolhas diferentes, perspectivas diferentes. Mas também específico o suficiente para servir como guia e, portanto, deve refletir seus principais valores - não apenas um necessariamente. Paz não é um propósito, é um valor. Uma pessoa cujos valores primários sejam paz e contribuição, por exemplo (usando apenas dois valores para simplificar o exemplo), pode ter um propósito como “Adquirir e manter paz na minha vida sem interferir na paz e escolhas alheias, contribuindo pro-ativamente para promover paz às pessoas à minha volta e ao mundo”. Uma pessoa com este propósito, provavelmente vai buscar dedicar boa parte do seu tempo (profissionalmente, inclusive) a atividades que promovam a paz (como causas humanitárias, por exemplo), a ajudar outras pessoas em dificuldades, viver respeitando as escolhas alheias, evitando conflitos desnecessários, ensinando seus filhos a serem tolerantes e carinhosos e assim por diante. Ao mesmo tempo, esta pessoa vai rejeitar escolhas que não estejam alinhadas com seu propósito - como por exemplo se relacionar com pessoas agressivas, aceitar um emprego que paga bem, mas rouba sua vida pessoal, morar em uma cidade em que passar 4 horas no trânsito diariamente é o padrão, etc. Através deste exemplo, fica fácil entender como ter um propósito ajuda imensamente a mantermos o foco nas coisas que são realmente importante para nós, não?
Não existe propósito certo ou errado. Existe o propósito certo para você. E ele deve estar alinhado com seus valores. Se seu principal valor é, de verdade, sucesso financeiro, seu propósito deve refletir isso. Se o que é importante pra você é variedade de experiências, ídem. Se é se desenvolver como pessoa e ser humano, ídem. Outro ponto fundamental é internalizar seu propósito de forma que você esteja de fato comprometido(a) com ele. De nada serve um propósito se ele é apenas algo que você escreveu num papel, mas não incorpora na sua vida.
Compreender a fundo seus valores e definir - ou mesmo encontrar - um propósito pode ter um impacto significativo na sua vida. Pode mudar tudo. Pode te fazer perceber que está na carreira errada, no lugar errado, no relacionamento errado, etc. Pode fazer você olhar para sua lista de 101 Coisas, como aconteceu comigo, e pensar: “Não é nada disso! Preciso começar do zero.” Mas se você tem medo de mudanças, talvez ainda não esteja pronto para sair da bolha. Entretanto, só o fato de você reconhecer que tem medo do impacto que isso pode causar na sua vida, já é um passo muito importante. O caminho para mudar isso é trabalhar seus medos e enfrentá-los, mas não os ignore! Se você quer viver uma vida que tenha significado para você, não pode se conformar em viver em negação, confinado dentro dos seus medos e receios. Pode acontecer também de você perceber que, de alguma forma, já está relativamente - ou consideravelmente - alinhado(a) com seu propósito. Mas ter consciência sobre ele vai te manter no curso certo.
Um dos efeitos que viver com um propósito pode ter na vida e no dia-a-dia de uma pessoa é servir como um guia para tomada de decisão. Se você sabe onde quer chegar, se seu propósito é claro para você, quando deparado com uma situação de escolha você pode se perguntar: “Isso me coloca mais perto ou me afasta do meu propósito? Isso acrescenta algo ao que eu quero de verdade pra mim ou não? E, se não, o que eu poderia estar fazendo no lugar desta alternativa que esteja mais em sintonia com o que eu quero?” As escolhas ficam muito mais simples - não somente as grandes escolhas, mas também as decisões menores do dia-a-dia. Imagine o tempo valioso que você tem a ganhar rejeitando escolhas “erradas” e abraçando as escolhas certas pra você! Imagine a proporção de experiências positivas e gratificantes que você pode passar a ter se tiver claro na sua cabeça e no seu coração que está no caminho certo! Imagine a sensação de liberdade derivada da internalização de um propósito que faz tanto sentido pra você e te motiva tão intensamente que você e ele parecem ser uma coisa só… Imagine viver com muito mais certezas do que dúvidas sobre as suas escolhas. Imagine viver sua vida diariamente se sentindo motivado, apaixonado, confiante, inspirado, livre! Agora páre de imaginar e tome uma atitude, porque tudo isso está ao seu alcance se você for capaz de se destacar do contexto atual da sua vida, entender quanto do seu verdadeiro “eu” está alinhado ou não com este contexto e perceber que mudá-lo é mais possível do que parece. É assim que vive uma pessoa consciente do seu propósito. Quando você vive o seu propósito, ele é tão significativo para você, que o que as outras pessoas acham simplesmente não importa. Críticas às suas escolhas simplesmente não te afetam, porque a sua convicção é muito mais forte do que a opinião alheia sobre a sua vida.
E se meus valores mudarem ao longo dos anos?
Reveja seu propósito. Refaça o processo. Viva o que faz sentido pra você em cada etapa da sua vida. Mas se você se aprofundar de verdade no processo da primeira vez, é provável que consiga definir um propósito tão significativo, que reflete tanto quem você realmente é em essência, que ele não sofrerá tanta alteração ao longo dos anos.
Nossa, mas vai dar trabalho!
Ah, vai… Vai sim! Trabalhar pra pagar as contas também dá. Criar um filho também dá. Construir uma casa também dá. Mas a recompensa é enorme e vale a pena. Vale a sua vida bem vivida. O tempo vai passar pra todo mundo, você vai usar este tempo de alguma forma de qualquer jeito. Como você prefere usar este tempo? Escolhendo conscientemente o que quer fazer ou dando voltas perdido no labirinto, enquanto alguém puxa um queijinho dizendo que aquilo é a melhor coisa do mundo, que é atrás do queijinho que você tem que ir, te distraindo da realidade do lado de fora, onde tem um banquete cheio de opções que você nem conhece ainda?
A escolha é sua.
Eu estou exagerando para fazer você pensar. Eu não acho de verdade que as pessoas que não definem um propósito para a sua vida sejam ratos de laboratório. Mas eu acho, isso sim, que se você nunca ao menos faz estes questionamentos na sua vida, está bem perto disso. E acredito, sinceramente, que viver com um propósito seja muito mais produtivo e gratificante do que viver sem um. É uma escolha. Eu ainda não tenho meu propósito 100% definido, mas estou bem perto. E o impacto positivo disso na minha vida já foi enorme. Mal posso esperar pelo impacto que virá da definição completa! Por isso quis compartilhar esta experiência, para tentar ajudar outras pessoas a também usufruir do mesmo tipo de resultados que estou tendo. E isso, é parte do meu propósito.