Uma vez eu li sobre um estudo que dizia que 21 dias (3 semanas) são o período necessário para se condicionar novos hábitos - quebrar vícios, estabelecer hábitos novos ou alterar hábitos antigo. Em outras palavras, se você quer incorporar um hábito novo na sua vida ou alterar ou cortar um já existente, tudo o que você tem a fazer é conscientemente manter o esforço repetitivo por 21 dias, após os quais seu cérebro e seu corpo passarão a reconhecer o novo hábito como estabelecido, repetindo automaticamente o novo padrão - de forma que o esforço consciente passa a não mais ser mais (tão) necessário. Eu não me lembro onde li sobre isso originalmente, não lembro quem fez o estudo, portanto não sei nada sobre a credibilidade desta informação, mas eu achei interessante e guardei na cabeça. Sempre pensei que, ainda que a quantidade de dias no estudo possa ser questionável, o conceito em si era interessante.

Tem muitos anos que eu li sobre isso e, embora eu nunca tenha objetivamente testado o conceito, acredito que seja de consenso geral que o início, ou os primeiros passos ou primeiros dias de qualquer mudança, são em geral os mais difíceis. Depois que você começa, a coisa parece que anda sozinha. Então, acho seguro afirmar que algum fundamento há neste estudo.

No ano passado eu li um artigo no blog do Steve Pavlina (que, aliás, recomendo pra todo mundo que fale inglês) falando sobre “30 Days Trials” - ou Experiências/Testes de 30 Dias. Neste artigo, o Steve fala sobre um conceito muito parecido com o do estudo descrito acima, mas baseado na idéia dos programas shareware: programas shareware são aqueles que você pode instalar no seu computador para testar e avaliar por um período de “x” dias (muito comumente 30 dias), após os quais você deverá ou comprar o software para poder continuar a utilizar ou então pode optar por desinstalá-lo do computador, já que é necessário um código para que continue funcionando após o período de avaliação (que você recebe se compra o produto). Com esta analogia em mente, o Steve escreve o artigo sugerindo que as pessoas façam experiências de 30 dias com hábitos que queiram condicionar, dando exemplos pessoais práticos de como isso já foi útil na vida dele.

Quando li o artigo, na hora lembrei do estudo dos 21 dias. E pensei comigo: “Interessante, embora não seja exatamente a mesma coisa e, aparentemente, ele não tenha baseado as experiências neste estudo, aqui estão exemplos reais que parecem embasar a teoria na prática.” Neste artigo, ele sugere uma série de situações em que experiências de 30 dias podem ser utilizadas e faz uma análise do porquê da técnica ser eficiente, com base nas suas experiências pessoais. Se você fala inglês, não deixe de ler o artigo na íntegra, mas para aqueles que não falam, vamos explorar um pouco estas idéias, que podem ser úteis em uma série de ítens da nossa lista - além de nos dar idéias para ítens novos.

Se vocês notarem, na minha lista eu tenho tarefas delimitadas por períodos de tempo. Esta delimitação tem o objetivo primário de permitir a mensuração do resultado, ou seja, se você tiver uma tarefa descrita como “parar de tomar refrigerante”, quando é que você considera esta tarefa cumprida se não definir um período? Mas, além disso, quando eu escrevi algumas das minhas metas, eu levei em conta a possibilidade do estudo dos 21 dias ter fundamento e vi como uma boa oportunidade de testar o conceito na prática. Depois de ler o artigo do Steve, eu percebi também que podia usar algumas idéias para testar coisas que eu não tenho ainda certeza se trarão ou não resultados positivos, mas que valem a experiência, na pior das hipóteses.

Voltando ao artigo, ele diz que quando encaramos uma mudança como algo definitivo, permanente, às vezes “pra sempre” ou “nunca mais” podem parecer assustadores - assustadores o suficiente para nos impedir de começar. No entanto, se você alterar esta perspectiva e encarar a mudança como temporária, fazendo um acordo consigo mesmo estabelecendo que após o período de 30 dias você poderá voltar ao que era antes se quiser, psicologicamente a tarefa fica mais fácil. Na prática, o esforço necessário é exatamente o mesmo, mas as chances de você se sabotar psicologicamente ficam menores. Primeiro, porque ao invés de estar lidando com “pra sempre” ou “nunca mais”, você vê a luz no fim do túnel - o final dos 30 dias. Além disso, se você vai fazer algo por um mês e ponto final, ter um prazo para manter consistência reduz a probabilidade de você dar a si próprio a desculpa de “depois eu faço”, afinal o que você tem que fazer é repetir algo diariamente por um mês - e ele está correndo. Não tem depois, a hora é agora… Uma vez iniciado o processo, se você pular um dia, você já sabotou a tarefa (que é fazer algo consistentemente por 30 dias consecutivos) e terá que recomeçar. É evidente que o sucesso de uma experiência como esta vai depender do seu comprometimento, como qualquer outra coisa, mas se comprometer com algo por 30 dias é mais fácil do que se comprometer com algo pra sempre.

Depois dos 30 dias, você terá resultados e informações suficientes para julgar a mudança e, uma vez já acostumado com o novo hábito, fica bem mais fácil mantê-lo indefinidamente se você optar por isso. Caso contrário, simplesmente retorne ao hábito antigo e caso encerrado.

O interessante é que, depois de ser bem-sucedido(a) em manter uma decisão consistentemente por um mês, você terá aumentado sua auto-confiança para fazer o mesmo com outras decisões e muito mais força de vontade para manter a decisão em questão (caso seja esta sua opção), porque você não vai querer desperdiçar o investimento (empenho) e o retorno conquistados nos 30 dias. Mesmo que você ainda precise investir esforço consciente e manter uma certa disciplina, como você já tem 30 dias de resultados, dificilmente vai voltar atrás se aquela mudança trouxe bons resultados para sua vida.

Agora, o que este artigo trouxe de novo para mim - já que o conceito em si eu já conhecia - foi a idéia de utilizar experiências de 30 dias para testar hábitos que eu não sei que resultados trarão e vivenciar experiências novas. O Steve dá alguns exemplos e faz algumas sugestões de testes de 30 dias que eu achei muito interessantes, tais como:

  • Ficar sem assistir TV por 30 dias (isso eu já fiz e foi excelente! Eu ainda assisto TV, mas muito esporadicamente, certamente muito menos do que assistia antes do teste. O que esta experiência me mostrou foi que eu podia fazer muito melhor uso do meu tempo e assistir TV somente quando realmente quero relaxar e não quero fazer coisas mais produtivas.)
  • Conhecer uma pessoa nova todo dia, iniciar uma conversa com alguém novo todo dia
  • Sair toda noite, ir cada dia a um lugar diferente
  • Limpar e organizar sua casa ou um cômodo específico todo dia (útil para aqueles quartos cheios de tranqueiras que você quer organizar há tempos! Use os 30 dias para arrumar um pouquinho por dia.)
  • Chamar alguém pra sair todo dia (se as pessoas vão sair ou não com você são outros quinhentos, o teste consiste em tentar. Se sua taxa de sucesso for 3%, ao menos você saiu com uma pessoa nova, quem sabe até seu futuro marido/esposa). Este exemplo pode ser aplicado a qualquer coisa sujeita a taxas de retorno.
  • Vícios: ficar sem fumar, beber café, refrigerante ou qualquer outro hábito pouco saudável
  • Postar no seu blog todos os dias
  • Ler por uma hora sobre um assunto do seu interesse todos os dias
  • Meditar todos os dias
  • Aprender uma palavra nova todos os dias
  • Caminhar todos os dias
  • Testar hábitos alimentares ou dietas novas - vegetariana, macrobiótica, vegan, etc… (no caso das dietas, ele diz duas coisas interessantes: primeiro, que em geral as duas primeiras semanas são praticamente de desintoxicação do organismo e que só a partir da terceira semana é que você começa de fato a sentir os efeitos dos novos hábitos no organismo, tais como alterações nos níveis de energia, etc. Segundo, que no caso dele - que já testou várias diferentes - mesmo quando ao final do período ele optou por não mais continuar extritamente com a dieta em questão, acabou incorporando alguns tipos de alimentos que antes não comia ou não conhecia à sua dieta normal.)

O que me parece fascinante é que, com esta idéia em mente, você pode testar uma série de coisas e ter experiências muito interessantes. Em outras palavras, pode extrapolar o conceito de condicionamento de hábitos e transformá-lo em uma ferramenta geradora de experiências. Se elas forem tão positivas que valham a pena serem incorporadas como hábitos, excelente. Caso contrário, ao longo dos 1001 dias (no caso específico do nosso projeto) você terá acumulado uma boa diversidade de experiências. Eu acho que o exemplo das dietas, acima, vale pra tudo. Mesmo quando você, ao término dos 30 dias, opta por voltar aos antigos hábitos, ao experimentar e testar alternativas novas você no processo aprende coisas novas também. Embora o hábito em si não se justifique integralmente, algumas das coisas que você aprendeu no processo podem ser de valia e incorporadas como benefícios individuais.

Como alguns de vocês sabem, eu estou refazendo minha lista de 101 Coisas e pretendo incluir várias experiências de 30 dias entre as minhas metas. Algumas para condicionamento de novos hábitos, outras para testar coisas que eu não sei que resultado terão, mas valem a tentativa e outras para ter experiências novas.

Se você achou o conceito interessante, deixe nos comentários suas idéias do que fazer como experiências de 30 dias. Estou particularmente interessada em ouvir idéias menos óbvias e convencionais - coisas como “fotografar uma pessoa diferente em uma situação específica todo dia por 30 dias”, “fazer uma mesma pergunta para 30 pessoas diferentes, uma por dia - e postar o resultado da pesquisa ou as respostas interessantes no blog”, etc. Acho que podemos reunir idéias bem interessantes por aqui, então participe. A imaginação é o limite. :-)